Ansiedade crónica
O que é a Ansiedade Crónica — sintomas e diferença para o stress normal
ANSIEDADEHIPNOTERAPIA
Miquelina Pires
3/1/20267 min read


Já tentaste. E sabes que tentaste.
Tentaste respirar fundo, pensar de forma mais positiva e convencer-te de que não existe motivo para te sentires assim. Talvez tenhas começado a fazer exercício, tentado dormir melhor, alterado a alimentação, experimentado meditação ou procurado respostas em livros e conteúdos de autoajuda.
Apesar de todo esse esforço, a ansiedade continua presente.
Isso não significa que és fraca, que te falta disciplina ou que não estás a tentar o suficiente.
Significa apenas que a ansiedade nem sempre desaparece através da força de vontade. Há respostas que se tornam automáticas e que não mudam apenas porque racionalmente sabes que estás segura.
O que é a ansiedade e quando se torna um problema
Sentir ansiedade faz parte da experiência humana.
Pode surgir antes de falares em público, enquanto esperas por um resultado médico ou quando enfrentas uma mudança importante. Nessas situações, o corpo prepara-se para responder ao que interpreta como exigente ou incerto.
A ansiedade pode aumentar a atenção, acelerar o pensamento e provocar alterações físicas, como tensão muscular, palpitações, desconforto no estômago ou respiração mais rápida.
Esta resposta não é, por si só, uma doença.
O problema surge quando o medo ou a preocupação se tornam excessivos, difíceis de controlar, persistem durante muito tempo e começam a interferir com o sono, o trabalho, as relações ou as tarefas habituais.
Os transtornos de ansiedade podem envolver preocupação intensa, inquietação, irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações do sono, sintomas físicos e tendência para evitar situações que provocam desconforto. Não existe, no entanto, uma única forma de ansiedade. Há diferentes condições, com características e tratamentos próprios.
Por isso, não é adequado concluir que tens “ansiedade crónica” apenas porque te sentes frequentemente ansiosa. Quando os sintomas são persistentes ou afetam de forma significativa a tua vida, é importante procurar uma avaliação clínica adequada.
Porque é que saber que estás segura nem sempre chega
Talvez já tenhas pensado:
“Eu sei que não existe perigo. Porque é que continuo a sentir isto?”
O facto de reconheceres racionalmente que uma situação é segura não significa que todas as respostas aprendidas desapareçam de imediato.
As nossas reações resultam da interação entre pensamentos, emoções, sensações físicas, experiências anteriores, hábitos e contexto. Muitas acontecem rapidamente, antes de termos tempo para as analisar de forma deliberada.
Podes compreender que um elevador é seguro e, ainda assim, sentir medo quando as portas fecham. Podes saber que uma apresentação não representa uma ameaça real e sentir o coração acelerar. Podes reconhecer que uma preocupação é improvável e continuar a voltar ao mesmo pensamento.
Isto não acontece porque existe uma parte escondida da mente que controla quase tudo o que fazes. A ideia de que o subconsciente processa 95% da atividade mental não tem uma base científica sólida e não deve ser utilizada para explicar a ansiedade.
É mais rigoroso dizer que alguns pensamentos, associações e respostas se tornam automáticos através da aprendizagem e da repetição.
A força de vontade pode ajudar-te a escolher determinadas ações. Pode levar-te a procurar apoio, praticar uma técnica ou enfrentar gradualmente uma situação que evitas. Mas nem sempre consegue impedir uma sensação automática de medo ou eliminar uma preocupação persistente.
Como algumas respostas de ansiedade são aprendidas
A ansiedade não tem uma única origem.
Pode ser influenciada por fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais. Experiências difíceis, perdas, situações imprevisíveis, doença, pressão prolongada e determinadas formas de aprendizagem podem contribuir para o seu aparecimento.
Algumas pessoas começam a evitar tudo o que lhes provoca ansiedade. A curto prazo, o evitamento traz alívio. A longo prazo, pode reforçar a ideia de que a situação era realmente perigosa e que só foi possível ficar segura porque se afastaram dela.
Também pode acontecer que uma sensação física, como o coração acelerado, seja interpretada como sinal de perigo. Essa interpretação aumenta o medo, que intensifica a sensação física e cria um ciclo difícil de interromper.
Noutras situações, a preocupação transforma-se numa tentativa constante de prevenir o que poderá acontecer. A pessoa pensa repetidamente em todos os cenários possíveis porque acredita que, se antecipar tudo, estará mais protegida.
Estas respostas não são escolhas conscientes feitas para complicar a vida. São formas de proteção que podem ter sido úteis em determinado momento, mas que deixaram de se ajustar à realidade atual.
Porque é que algumas estratégias ajudam e outras não chegam
Respirar de forma mais lenta, praticar exercício, dormir melhor e desenvolver momentos de pausa podem contribuir para reduzir sintomas de ansiedade.
A Organização Mundial da Saúde inclui técnicas de relaxamento, atividade física regular, hábitos de sono e estratégias de gestão do stress entre as medidas que podem apoiar o tratamento. Estas práticas não são inúteis, mas também não substituem cuidados adequados quando existe uma perturbação de ansiedade.
Uma técnica pode ajudar durante alguns minutos e, ainda assim, não modificar o problema que mantém a ansiedade. Podes sentir algum alívio depois de respirar fundo, mas continuar a evitar situações, a interpretar sensações como perigosas ou a passar horas presa em preocupações.
Isso não significa que a técnica falhou ou que a executaste mal. Pode simplesmente significar que precisas de uma intervenção mais estruturada.
Para a perturbação de ansiedade generalizada, as recomendações clínicas incluem intervenções psicológicas baseadas em terapia cognitivo-comportamental, relaxamento aplicado e, em algumas situações, tratamento farmacológico. A escolha depende da intensidade dos sintomas, do impacto na vida da pessoa, das suas preferências e da avaliação clínica.
A força de vontade não substitui estas intervenções. Mas também não é correto afirmar que a psicologia trabalha apenas a parte consciente ou que não consegue chegar às respostas automáticas.
A psicoterapia pode trabalhar pensamentos, comportamentos, emoções, evitamento, memórias, relações e padrões aprendidos. Em muitas perturbações de ansiedade, a terapia cognitivo-comportamental e a exposição estão entre as abordagens com mais evidência.
Onde pode entrar a hipnoterapia clínica
A hipnoterapia clínica utiliza a hipnose como parte de um processo orientado para objetivos definidos.
Durante a sessão, a atenção fica mais concentrada e podem ser utilizadas sugestões terapêuticas, imaginação orientada e outros recursos para trabalhar sensações, antecipações, hábitos e respostas automáticas.
Não perdes a consciência nem deixas de controlar aquilo que fazes. Continuas capaz de ouvir, responder e interromper a sessão.
Na minha prática, a hipnoterapia pode ser utilizada para trabalhar a forma como te relacionas com determinadas sensações, a antecipação de situações difíceis, a dificuldade em parar, o medo de perder o controlo ou algumas respostas que se tornaram habituais.
Isto não significa que a hipnoterapia aceda diretamente ao “código” da mente enquanto outras abordagens trabalham apenas a superfície. Essa comparação é apelativa, mas não é cientificamente rigorosa.
Também não existe evidência suficiente para afirmar que a hipnose trata, por si só, as perturbações de ansiedade de forma geral.
A investigação encontrou resultados promissores sobretudo em situações de ansiedade associada a procedimentos médicos ou dentários, mas a evidência global ainda não é conclusiva.
Por isso, apresento a hipnoterapia como uma abordagem complementar, não como substituta da psicoterapia, da medicação ou da avaliação médica.
Quando é importante procurar avaliação
A ansiedade merece atenção quando se torna persistente, difícil de controlar ou começa a limitar a tua vida.
Talvez evites conduzir, entrar em determinados espaços, falar com pessoas, utilizar transportes ou permanecer sozinha. Talvez a preocupação ocupe grande parte do dia, afete o sono ou te impeça de estar presente nas relações.
Também pode acontecer que sintas palpitações, tremores, falta de ar, náuseas, tensão, inquietação ou uma sensação de perigo iminente.
Estes sintomas podem surgir em situações de ansiedade, mas também podem ter outras causas. Por isso, manifestações físicas novas, intensas ou persistentes devem ser avaliadas por um profissional de saúde.
Se já estás a ser acompanhada por um psicólogo, psiquiatra ou médico, não interrompas esse acompanhamento para iniciar hipnoterapia. Também não alteres medicação prescrita sem falar com o profissional responsável.
Quando a ansiedade provoca sofrimento acentuado, perda importante de funcionamento, isolamento, abandono dos cuidados pessoais ou pensamentos de te magoares, é necessário procurar apoio especializado com urgência.
Caso sintas que não estás segura, contacta o 112, dirige-te a um serviço de urgência ou pede a uma pessoa de confiança que permaneça contigo.
O que podes esperar do processo
Antes de iniciar qualquer acompanhamento, é importante perceber o que estás a sentir, há quanto tempo acontece, que impacto tem na tua vida e que outros cuidados já existem.
A hipnoterapia pode ajudar-te a observar determinadas respostas com maior distância, praticar formas diferentes de dirigir a atenção e reforçar recursos que possas utilizar fora das sessões.
O processo exige participação. Não se trata de ficares passivamente à espera que alguém retire a ansiedade.
Durante as sessões, trabalhamos objetivos concretos e adaptados à tua situação. Entre sessões, pode ser importante praticar exercícios ou utilizar áudios de apoio.
Não prometo eliminar a ansiedade para sempre, nem resultados iguais para todas as pessoas.
O objetivo é ajudar-te a desenvolver formas mais ajustadas de responder, sem ignorar a necessidade de acompanhamento médico ou psicológico quando este é indicado.
A força de vontade não falhou
Caso tenhas tentado várias estratégias e continues a sentir ansiedade, isso não significa que falhaste.
Também não significa necessariamente que existe uma causa escondida ou uma memória antiga que precisa de ser descoberta.
Pode significar que o problema precisa de ser melhor avaliado, que a estratégia não era adequada ao tipo de ansiedade que sentes ou que ainda não tiveste acesso ao acompanhamento certo.
A força de vontade é importante para tomares decisões, procurares ajuda e manteres o compromisso com o processo. Mas não deve ser utilizada como medida do teu valor ou como prova de que devias conseguir resolver tudo sozinha.
Não precisas de lutar contra ti própria para merecer sentir-te melhor.
Caso queiras perceber se a hipnoterapia clínica pode integrar o teu acompanhamento, podes marcar uma conversa inicial gratuita, online e com aproximadamente 20 minutos.
Podes também conhecer o Protocolo Recomeço, um percurso estruturado de cinco sessões para pessoas que vivem esgotamento, sobrecarga e dificuldade em recuperar.
Miquelina Pires
Enfermeira desde 1993 e hipnoterapeuta clínica
Consultas presenciais em Tomar e Abrantes e atendimento online
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