Quando o tempo fora do trabalho serve apenas para recuperar para o dia seguinte

Tens tempo livre, mas falta-te energia para o aproveitar? Percebe o que observar quando a vida fora do trabalho fica reduzida a recuperar.

Miquelina Pires

10/29/20264 min read

Livro fechado e sapatilhas junto a um sofá azul, numa sala iluminada pela luz de fim de tarde.
Livro fechado e sapatilhas junto a um sofá azul, numa sala iluminada pela luz de fim de tarde.

Chegas a casa e ainda há coisas para fazer. Preparar o jantar, tratar da roupa, responder a uma mensagem. Vais fazendo, com a ideia de que depois terás algum tempo para ti.

Mas, quando esse momento chega, já não te apetece escolher um filme, pegar num livro ou conversar com alguém. Só queres ficar quieta.

No dia seguinte, voltas ao trabalho. E, aos poucos, o tempo entre um dia e o outro começa a servir quase exclusivamente para recuperares o suficiente para repetir a rotina.

É esta diferença que vale a pena observar: ter horas livres não significa ter energia disponível para as viver.

Querer fazer alguma coisa e ter disponibilidade para a fazer

Podes ter saudades de uma amiga e recusar o convite para um café. Podes querer retomar uma atividade e sentir que só pensar na preparação e na deslocação já te custa.

Antes de concluíres que estás a ficar desinteressada, pergunta-te o que acontece quando surge essa possibilidade. Deixou de fazer sentido para ti? Ou continua a fazer sentido, mas chegas a esse momento sem disponibilidade?

A resposta pode variar. Num dia, precisas de descansar. Noutro, já não tens interesse naquela atividade. Noutros, o esforço acumulado deixa pouco espaço para aquilo que ainda desejas fazer.

Perceber a diferença ajuda-te a olhar para a situação com mais precisão, em vez de explicares tudo como falta de vontade.

Quando recuperar ocupa quase todo o espaço

Descansar depois de um dia exigente faz parte da vida. A questão é perceber se estás a atravessar uma fase pontual ou se esta passou a ser a forma habitual de viveres.

Imagina que deixas uma atividade para o fim de semana porque durante a semana não consegues. Chega o sábado e precisas de tratar do que ficou pendente. No domingo, tentas descansar e já começas a preparar a segunda-feira. A atividade volta a ficar para depois.

Se isto se repete, merece atenção. Não porque tenhas de aproveitar cada hora, mas porque aquilo de que gostas está a desaparecer da tua rotina sem teres decidido prescindir disso.

Pensa comigo: se organizas o descanso apenas para conseguires voltar a trabalhar, onde fica o espaço para estares com alguém, teres curiosidade ou fazeres uma coisa pelo prazer de a fazer?

A organização da tua vida também conta

É fácil responder a este problema com uma lista: dormir melhor, fazer exercício, organizar a agenda, aprender a relaxar.

Esses cuidados podem ter lugar. Mas uma lista de hábitos não explica, por si, uma carga de trabalho excessiva, horários prolongados ou a falta de pessoas para cumprir o trabalho. A Organização Mundial da Saúde identifica estas condições como riscos para a saúde mental no trabalho. who.int

Em casa, também importa perceber como estão distribuídas as responsabilidades. Se és tu quem faz, antecipa, lembra e organiza quase tudo, a tua disponibilidade não depende apenas de gerires melhor o tempo.

Reconhecer o contexto permite distinguir o que podes experimentar mudar nas tuas respostas daquilo que exige uma conversa, uma redistribuição ou uma mudança nas condições em que vives.

Ter responsabilidade por uma escolha não significa ter culpa por toda a situação.

Por onde podes começar a observar

Em vez de acrescentares já uma nova rotina, escolhe um momento recente em que quiseste fazer alguma coisa para ti e acabaste por não fazer.

O que tinhas feito antes? Como estavas? O que tornou aquela possibilidade difícil: a deslocação, a necessidade de conversar, a preocupação com tarefas por terminar?

Um exemplo concreto é mais útil do que dizeres a ti própria que nunca tens energia para nada.

Depois, olha para o que esse exemplo te mostra. Se o problema foi um dia excecionalmente exigente, descansar pode ser a resposta adequada. Se acontece quase todos os dias, é importante olhar para o conjunto: o que te está a ser exigido, que apoio tens e o que deixou de caber na tua vida.

Uma adaptação pequena pode ajudar num dia: um encontro mais curto, uma tarefa partilhada ou um plano menos exigente. Mas não deve servir para te convenceres de que tens de te ajustar indefinidamente a uma carga que continua excessiva.

O cansaço persistente merece avaliação

Nem todo o cansaço se explica pela sobrecarga ou pelo trabalho. Alterações do sono, algumas doenças, medicamentos e dificuldades de saúde mental também podem contribuir.

Se o cansaço dura há semanas, interfere no teu quotidiano ou surge com outros sintomas, procura avaliação junto do teu médico de família. Não precisas de esperar até deixares de conseguir trabalhar para levar o que sentes a sério. NHS

Reconheceres-te neste texto não permite concluir que estás em burnout, nem identificar a causa do teu cansaço.

Um primeiro momento para olhares para ti

Preparei dez perguntas para te ajudar a refletir sobre como te tens sentido no dia a dia. O resultado é imediato e não constitui um diagnóstico nem substitui uma avaliação profissional.

Podes fazer o quiz gratuito aqui.

Ao responderes, procura considerar também o esforço que te custa cumprir o dia. Aquilo que consegues fazer e a forma como te sentes enquanto o fazes são duas informações que merecem espaço.

Sobre a autora

Miquelina Pires é enfermeira há mais de 30 anos, com formação em hipnoterapia clínica. Atende em Tomar e Abrantes, e online para todo o país.

Fontes

  • Organização Mundial da Saúde. Mental health at work. Informação sobre condições de trabalho e riscos para a saúde mental, incluindo carga excessiva, falta de pessoal e horários prolongados.

  • NHS. Tiredness and fatigue. Informação sobre possíveis causas do cansaço e situações em que se recomenda avaliação médica.

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