Regresso à rotina: porque setembro não muda aquilo que continuas a repetir

Regressar à rotina não muda sozinho respostas automáticas. Percebe porque repetes o que te sobrecarrega e como começar a responder de outra forma.

REGULAÇÃO

Miquelina Pires

9/3/20265 min read

Mulher sentada junto a uma janela, diante de uma agenda aberta, a refletir sobre o regresso à rotina
Mulher sentada junto a uma janela, diante de uma agenda aberta, a refletir sobre o regresso à rotina

Setembro pode mudar os teus horários. Não muda, sozinho, a resposta que aparece quando alguém volta a pedir mais de ti.

Imagina o primeiro dia de regresso ao trabalho. Abres a caixa de correio e já tens assuntos acumulados. Ainda não organizaste o teu dia quando alguém te pede para assumires mais uma tarefa.

Antes de consultares a agenda, respondes que sim.

Durante alguns minutos, sentes alívio. Não precisaste de explicar que não podias. Evitaste a possibilidade de desiludir alguém e o assunto ficou resolvido.

Mais tarde, percebes que voltaste a aceitar mais do que consegues fazer. Chegas ao fim do dia cansada, irritada e com a sensação de que setembro começou exatamente no ponto onde agosto terminou.

Não te faltou informação. Tu já sabias que precisavas de estabelecer limites.

O que aconteceu foi mais rápido do que a decisão que querias tomar.

Quando a resposta aparece antes da escolha

Na minha prática, encontro frequentemente mulheres que sabem explicar aquilo que as sobrecarrega.

Sabem que precisam de descansar. Reconhecem que aceitam responsabilidades que não lhes pertencem. Percebem que evitam determinadas conversas e que continuam a colocar as necessidades dos outros à frente das suas.

Ainda assim, no momento em que a situação volta a surgir, repetem a mesma resposta.

Isto não significa que sejam fracas, incoerentes ou incapazes de mudar. Significa que compreender uma reação e conseguir responder de forma diferente são duas etapas distintas.

Uma resposta repetida pode tornar-se mais automática quando aparece muitas vezes em contextos semelhantes. A investigação sobre hábitos descreve precisamente esta ligação entre uma situação recorrente e a resposta que começa a surgir com menos decisão consciente.

Isso não transforma todas as reações emocionais em hábitos. A história de cada pessoa, o estado de saúde, o contexto profissional, as relações e acontecimentos difíceis também influenciam a forma como reage.

Mas ajuda a explicar porque uma intenção nova pode não ser suficiente quando a situação antiga regressa.

O alívio imediato pode manter aquilo que te prejudica

Voltemos ao pedido que aceitaste sem verificar se tinhas disponibilidade.

Dizer que sim retirou um desconforto imediato. Não tiveste de enfrentar uma possível reação negativa, justificar a tua decisão ou suportar a sensação de estares a desiludir alguém.

Esse alívio pode reforçar a resposta.

Na investigação sobre aprendizagem por evitamento, uma resposta pode tornar-se mais provável quando reduz rapidamente o medo ou o desconforto. Não porque seja a melhor escolha a longo prazo, mas porque funcionou naquele momento.

O mesmo mecanismo pode aparecer quando adias uma conversa difícil, evitas abrir uma mensagem, cancelas algo que te causa ansiedade ou continuas a ocupar-te para não parar.

Evitar nem sempre é errado. Há situações das quais deves proteger-te e limites que precisas de estabelecer. O problema surge quando o evitamento se torna a única resposta disponível e começa a reduzir as tuas escolhas.

O alívio dura pouco. A situação continua por resolver e, quando regressa, a resposta antiga já está pronta a aparecer novamente.

Porque regressar à rotina pode reativar respostas antigas

A rotina dá estrutura aos dias. Pode ajudar-te a organizar horários, refeições, sono, compromissos e momentos de descanso.

Mas também devolve os contextos associados às respostas que querias mudar.

Regressas ao mesmo local, às mesmas relações, aos mesmos pedidos e às mesmas pressões. O corpo reconhece esses sinais e pode antecipar aquilo que costuma acontecer a seguir.

A investigação experimental sugere também que, em determinadas condições, o stress pode favorecer respostas mais habituais em detrimento de escolhas orientadas pelo resultado. Isto não significa que uma pessoa sob stress deixe de conseguir escolher. Significa que pode tornar-se mais difícil interromper uma resposta já muito praticada.

É por isso que uma agenda nova pode organizar o teu tempo sem alterar a forma como reages quando sentes pressão.

A mudança não começa na agenda. Começa no momento exato em que reconheces que estás prestes a responder como sempre respondeste.

O que precisaria de acontecer de forma diferente

Imagina que recebes novamente um pedido inesperado.

A resposta antiga seria aceitar imediatamente. Uma alternativa possível não precisa de ser uma recusa definitiva. Pode começar por uma frase simples:

“Preciso de consultar a minha agenda antes de responder.”

Esta frase cria um intervalo entre o pedido e a resposta.

Nesse intervalo, podes reparar no que está a acontecer. Talvez sintas tensão no peito, pressa em resolver ou medo de que a outra pessoa fique desagradada. Talvez apareça a vontade de dizer que sim apenas para terminares a conversa.

A mudança não consiste em eliminar imediatamente esse desconforto. Consiste em conseguires permanecer tempo suficiente para escolheres com mais clareza.

Depois de consultares a agenda, podes aceitar, recusar ou negociar. A diferença é que a resposta deixa de acontecer apenas para obter alívio imediato.

Uma experiência não muda anos de repetição. Mas oferece ao corpo informação nova: é possível esperar, avaliar e responder sem seguir automaticamente o caminho antigo.

Essa experiência precisa de ser observada, repetida e ajustada. Não existe um número de repetições ou um prazo igual para todas as pessoas.

Saber o que fazer nem sempre é o que falta

Muitas mulheres que chegam até mim já sabem que precisam de dizer não, descansar ou pedir ajuda.

O problema não é falta de conselhos.

É não conseguirem usar aquilo que sabem no momento em que a resposta automática aparece.

É aí que um acompanhamento individual pode fazer diferença. Permite identificar as situações que ativam a resposta, compreender o que acontece no corpo e trabalhar alternativas ajustadas à história e às necessidades da pessoa.

No meu acompanhamento, utilizo a hipnoterapia como uma técnica complementar. Num estado de atenção mais concentrada, algumas pessoas conseguem observar respostas automáticas e experimentar sugestões ou experiências guiadas de forma diferente.

A hipnoterapia não apaga memórias, não retira consciência e não impõe comportamentos. Também não substitui avaliação ou tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico quando estes são necessários.

Setembro pode marcar uma decisão

Não há nada de errado em usar setembro para reorganizar prioridades.

O erro é esperar que o regresso à rotina faça, sozinho, uma mudança que depende da forma como respondes dentro dessa rotina.

Recomeçar não exige que transformes tudo de uma vez. Exige que reconheças o momento em que a resposta antiga aparece e comeces a criar espaço para uma escolha diferente.

Se continuas a aceitar mais do que consegues, a adiar conversas ou a cumprir tudo sem te reconheceres na forma como estás a viver, podes marcar uma conversa inicial gratuita.

É uma conversa online com aproximadamente 20 minutos. Serve para conheceres a minha forma de trabalhar, esclareceres dúvidas e percebermos se a hipnoterapia pode ser um apoio complementar adequado para ti.

Se ainda não estás preparada para conversar, podes começar pelo áudio gratuito Pare. Respire. Recomece.

Sobre a autora: Miquelina Pires é enfermeira desde 1993 e hipnoterapeuta clínica. Atende presencialmente em Tomar e Abrantes e online em todo o país.

Referências

Lally, P., van Jaarsveld, C. H. M., Potts, H. W. W., & Wardle, J. (2010). How are habits formed: Modelling habit formation in the real world. European Journal of Social Psychology, 40, 998–1009. https://doi.org/10.1002/ejsp.674

Pittig, A., Treanor, M., LeBeau, R. T., & Craske, M. G. (2018). The role of associative fear and avoidance learning in anxiety disorders: Gaps and directions for future research. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 88, 117–140. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2018.03.015

Schwabe, L., & Wolf, O. T. (2009). Stress prompts habit behavior in humans. Journal of Neuroscience, 29(22), 7191–7198. https://doi.org/10.1523/JNEUROSCI.0979-09.2009

Wood, W., & Rünger, D. (2016). Psychology of Habit. Annual Review of Psychology, 67, 289–314. https://doi.org/10.1146/annurev-psych-122414-033417

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