Porque é que parar nem sempre chega para descansar?
Parar as tarefas nem sempre acalma a cabeça. Neste artigo, exploro o peso do que fica pendente e uma forma de começares a observar o que precisas para descansar.
ESGOTAMENTO
Miquelina Pires
10/8/20263 min read


Chegas ao fim do dia, sentas-te no sofá e já não estás a trabalhar. Mesmo assim, continuas a rever a conversa que tiveste, a pensar numa mensagem por responder ou a organizar mentalmente o dia seguinte.
O corpo parou. A atenção continua ocupada.
É por isso que, às vezes, meia hora sem fazer nada não se parece com meia hora de descanso. A pausa existe no calendário, mas parte de ti continua a tratar das obrigações.
O que ficou por terminar também ocupa espaço
Imagina que sais do trabalho com uma tarefa a meio. Sabes que não a podes concluir nessa noite, mas voltas a pensar nela enquanto preparas o jantar. Depois, já sentada, lembras-te de outro pormenor.
Isto não significa que estejas a escolher preocupar-te. Tarefas por terminar podem continuar presentes nos pensamentos durante o tempo fora do trabalho. Uma análise de estudos encontrou uma associação entre tarefas profissionais inacabadas e pensamentos sobre o trabalho nas horas de descanso. É uma associação, não uma explicação única para o que cada pessoa sente.
Há ainda responsabilidades que não ficam contidas no horário de trabalho: uma pessoa da família a quem precisas de responder, uma decisão por tomar, algo em casa que contas resolver assim que tiveres tempo. Podes estar sentada e continuar a fazer essa gestão por dentro.
Descansar não é mais uma tarefa para fazer bem
Quando percebes que não estás a descansar, pode surgir outra exigência: “Tenho de conseguir desligar.”
E começas a avaliar a pausa. Já passou tempo suficiente? Estou mais tranquila? Devia fazer outra coisa para aproveitar melhor esta meia hora?
É compreensível querer que o descanso ajude. Mas obrigar-te a sentir uma mudança imediata pode acrescentar pressão ao momento que tinhas reservado para ti.
A investigação sobre recuperação do trabalho distingue deixar de executar uma tarefa de conseguir afastar temporariamente a atenção dela. Esta capacidade de desligar mentalmente é estudada como parte da recuperação, e pode ser mais difícil quando as exigências continuam elevadas. Isso também mostra porque não faz sentido colocar toda a responsabilidade numa pequena pausa individual.
O que podes observar antes de tentar "desligar"
Da próxima vez que parares e continuares com a cabeça cheia, começa por dar nome ao que lá está. É uma tarefa concreta? Uma conversa que ficou por esclarecer? A antecipação de amanhã?
Depois, pergunta-te se há alguma decisão que tenhas de tomar agora. Se houver, talvez precises de tratar desse assunto ou de definir quando o vais tratar. Se não houver, podes reconhecer que o pensamento apareceu sem teres de lhe dar o resto da tua pausa.
Este exercício não elimina as responsabilidades. Ajuda-te a distinguir uma coisa que pede ação neste momento de outra que pode esperar. E permite-te reparar se o problema está naquela tarefa ou na quantidade de coisas que tens vindo a assumir.
Uma pausa pode ajudar. Se regressas sempre ao mesmo peso, também vale a pena olhar para o que preenche os teus dias e para o lugar que as tuas necessidades têm tido neles.
Foi com esta atenção que criei o De Volta a Mim: sete áudios guiados e um ebook de apoio para usares em casa, ao teu ritmo. É um recurso complementar para começares a parar e a escutar-te; não inclui acompanhamento individual.
Sobre a autora: Miquelina Pires é hipnoterapeuta clínica e enfermeira há mais de 30 anos. Atende em Tomar e Abrantes, e online para todo o país.
Referências: Agolli e Holtz, revisão sobre desligar mentalmente do trabalho; Wendsche e colegas, análise sobre tarefas inacabadas e pensamentos fora do trabalho; Karabinski e colegas, análise de intervenções.
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