Porque pedir ajuda pode parecer difícil mesmo quando reconheces que não estás bem

Cansaço, incerteza, culpa e medo de não ser compreendida podem fazer-te adiar. Percebe o que pode estar por trás dessa hesitação.

BURNOUTHIPNOTERAPIAANSIEDADE

Miquelina Pires

4/16/20267 min read

A thoughtful middle-aged woman sitting at a wooden kitchen table holding a coffee mug.
A thoughtful middle-aged woman sitting at a wooden kitchen table holding a coffee mug.

Há uma conversa que muitas mulheres têm consigo próprias durante meses. Às vezes, durante anos.

“Não estou bem. Sei que não estou bem. Mas ainda não está assim tão grave.”

E ficam nesse intervalo. Reconhecem que alguma coisa mudou, mas continuam a adiar. Dizem a si próprias que ainda conseguem trabalhar, cumprir responsabilidades e cuidar dos outros. Como continuam a funcionar, concluem que ainda não precisam de procurar apoio.

Talvez te identifiques com esta hesitação.

Não significa necessariamente que te falta coragem ou força de vontade. Procurar ajuda implica reconhecer uma dificuldade, reservar tempo para ti e entrar numa situação que ainda não conheces. Quando já estás cansada ou sobrecarregada, até uma decisão aparentemente simples pode parecer difícil.

O que acontece nesse intervalo

A sobrecarga raramente começa com uma interrupção completa da capacidade de funcionar.

Na maioria das vezes, instala-se gradualmente. Primeiro, precisas de fazer um pouco mais de esforço. Depois, o descanso deixa de chegar. Começas a ter menos paciência, maior dificuldade em concentrar-te ou uma sensação persistente de que nunca consegues terminar tudo.

Ainda assim, continuas.

O corpo e a mente têm uma grande capacidade de adaptação. Conseguimos manter rotinas e responsabilidades mesmo quando o custo interno está a aumentar. Essa capacidade é útil, mas pode também levar-nos a normalizar um nível de cansaço, tensão ou preocupação que já merece atenção.

Aquilo que se repete durante muito tempo pode tornar-se familiar. Passas a considerar normal viver apressada, pensar constantemente no que falta fazer ou sentir culpa sempre que tentas parar.

Quando surge a possibilidade de procurar ajuda, podes começar a pensar que talvez estejas a exagerar, que outras pessoas estão pior ou que ainda devias conseguir resolver sozinha.

É precisamente assim que o adiamento se mantém.

“Ainda não estou mal o suficiente”

Esta é uma das frases que ouço com maior frequência.

Existe a ideia de que pedir ajuda só é legítimo quando já não se consegue trabalhar, levantar da cama ou cumprir as tarefas essenciais. Até lá, parece que é necessário continuar e esperar.

Mas não precisas de chegar a esse ponto para reconhecer que alguma coisa não está bem.

O burnout, quando é essa a situação, está relacionado com stress profissional crónico que não foi gerido com sucesso. A Organização Mundial da Saúde descreve-o através do esgotamento, do aumento da distância mental ou do negativismo em relação ao trabalho e da diminuição da eficácia profissional. A própria organização esclarece que o burnout é um fenómeno ocupacional, não uma doença, e que o termo se aplica especificamente ao contexto de trabalho. Podes consultar aqui a definição da Organização Mundial da Saúde.

Quando o desgaste resulta sobretudo da acumulação de responsabilidades familiares, cuidado de outras pessoas, relações difíceis ou exigências em várias áreas da vida, poderá ser mais adequado falar de esgotamento ou sobrecarga prolongada.

Em qualquer dos casos, não é necessário esperar por uma crise.

A Organização Mundial da Saúde identifica fatores como excesso de trabalho, horários prolongados, falta de autonomia, insegurança profissional, discriminação e pouco apoio como riscos para a saúde no contexto laboral. Recomenda que a prevenção não seja colocada apenas sobre a pessoa, mas inclua também alterações nas condições e na organização do trabalho. A informação completa está disponível na página da OMS sobre saúde mental no trabalho.

Isto é importante porque recuperar não significa apenas aprender a suportar melhor aquilo que te está a fazer mal.

Pode ser necessário rever horários, responsabilidades, limites, condições de trabalho e o apoio de que dispões. Em algumas situações, também pode ser importante procurar avaliação médica ou outro acompanhamento especializado.

Porque é tão fácil continuar a adiar

Marcar uma conversa parece simples quando é visto de fora. Mas, para quem já está cansada, pode representar mais uma tarefa, mais uma decisão e mais uma incerteza.

Talvez não saibas explicar exatamente o que sentes. Podes ter receio de não ser compreendida ou de ouvires que estás apenas cansada e precisas de descansar.

Também podes pensar que começar um acompanhamento significa mexer em assuntos para os quais ainda não estás preparada.

Há ainda outra dificuldade: muitas mulheres estão habituadas a responder rapidamente às necessidades dos outros, mas sentem culpa quando precisam de reservar tempo, atenção ou dinheiro para si próprias.

O adiamento pode parecer a opção mais fácil naquele momento. No entanto, aquilo que estás a sentir continua presente e, muitas vezes, vai ocupando cada vez mais espaço.

Não precisas de te obrigar a tomar uma decisão precipitada. Mas pode ser útil distinguir entre precisares de algum tempo para pensar e continuares indefinidamente à espera de te sentires suficientemente mal para agir.

O que não precisas de saber antes de começar

Não precisas de ter as palavras certas para explicar aquilo que sentes.

Também não precisas de saber antecipadamente se a hipnoterapia é a abordagem mais adequada para ti. Essa decisão deve ser tomada depois de receberes informação clara sobre o processo, os seus limites e aquilo que poderá ou não fazer sentido na tua situação.

Podes chegar a uma conversa inicial dizendo apenas que estás cansada, que não te reconheces na forma como tens reagido ou que sentes que alguma coisa precisa de mudar.

A partir daí, podemos perceber há quanto tempo te sentes assim, como isso está a afetar o teu quotidiano e que outros cuidados poderão ser necessários.

A conversa inicial não é uma consulta de diagnóstico. Não serve para estabelecer uma doença, uma perturbação ou uma explicação definitiva para aquilo que estás a viver.

Serve para conhecer brevemente a tua situação, esclarecer dúvidas e perceber se a hipnoterapia pode ser considerada como recurso complementar.

Onde pode entrar a hipnoterapia clínica

A hipnoterapia clínica utiliza atenção focada, imaginação orientada e sugestões terapêuticas relacionadas com objetivos previamente definidos.

Durante uma sessão, continuas consciente e capaz de ouvir, falar, abrir os olhos ou interromper o exercício. Não perdes o controlo nem és obrigada a revelar informações que não queiras partilhar.

Na minha prática, este acompanhamento pode ser utilizado para trabalhar a dificuldade em parar, a culpa associada ao descanso, a antecipação constante, o medo de desiludir e algumas respostas que se tornaram habituais.

Não trabalho através de diagnósticos psicológicos nem apresento a hipnoterapia como substituta de cuidados médicos, acompanhamento psicológico, psiquiátrico ou alterações necessárias na vida e no trabalho.

Também não é cientificamente rigoroso afirmar que, durante a hipnose, o cérebro fica simplesmente “mais recetivo à mudança” ou que os padrões automáticos deixam de atuar. A investigação descreve a hipnose através de processos como atenção, imaginação, expectativas e resposta a sugestões, mas ainda não existe uma teoria única que explique todos os seus mecanismos. Uma revisão sistemática publicada em 2024 pode ser consultada na PubMed.

O National Center for Complementary and Integrative Health refere que a hipnose tem sido estudada em diferentes áreas, mas os resultados e a qualidade da evidência variam de acordo com a situação. Existem contextos com resultados promissores e outros em que a evidência permanece limitada ou contraditória. Podes consultar aqui a síntese científica do NCCIH sobre hipnose.

Por isso, a hipnoterapia deve ser apresentada com prudência, objetivos realistas e respeito pelos limites de cada pessoa.

O primeiro passo pode ser apenas uma conversa

O primeiro passo pode parecer o mais difícil porque transforma uma preocupação privada numa decisão concreta.

Mas não precisas de decidir imediatamente iniciar um acompanhamento.

Podes começar por esclarecer dúvidas, perceber como funciona uma sessão e avaliar se te sentes confortável com esta abordagem.

É também possível que, durante essa conversa, se perceba que precisas primeiro de uma avaliação médica ou de outro tipo de apoio. Isso não significa que perdeste tempo. Significa que começaste a procurar uma resposta mais adequada para aquilo que estás a viver.

Caso tenhas sintomas físicos persistentes, mudanças importantes no sono, cansaço intenso ou alterações significativas no teu funcionamento diário, considera procurar avaliação por um profissional de saúde.

Se sentires que não estás segura, que podes magoar-te ou que já não consegues lidar com o momento, contacta o 112, dirige-te a um serviço de urgência ou pede a uma pessoa de confiança que permaneça contigo.

Não precisas de esperar pelo pior momento

Reconhecer que alguma coisa mudou não significa dramatizar.

Significa prestar atenção antes de a situação ocupar ainda mais espaço na tua vida.

Talvez continues a trabalhar, a cuidar dos outros e a cumprir aquilo que é esperado de ti. Mas isso não invalida o cansaço, a dificuldade em parar ou a sensação de que te estás a afastar de quem eras.

Não precisas de provar que estás suficientemente mal para merecer apoio.

Podes começar por uma conversa inicial gratuita, sempre online e com aproximadamente 20 minutos. É um espaço para explicares brevemente o que estás a viver, colocares as tuas perguntas e perceberes se a hipnoterapia clínica poderá fazer sentido como recurso complementar.

Podes ver a disponibilidade para uma conversa inicial gratuita.

Podes também conhecer o Protocolo Recomeço, um percurso estruturado de cinco sessões para pessoas que vivem esgotamento, sobrecarga e dificuldade em recuperar.

Miquelina Pires
Enfermeira desde 1993 e hipnoterapeuta clínica desde 2023
Consultas presenciais em Tomar e Abrantes e atendimento online

Fontes consultadas

Organização Mundial da Saúde. Burn-out an occupational phenomenon.

Organização Mundial da Saúde. Mental health at work.

Organização Mundial da Saúde. Psycho-social risks and mental health.

Zahedi, A., Lynn, S. J. e Sommer, W. How hypnotic suggestions work: a systematic review of prominent theories of hypnosis. PubMed, 2024.

National Center for Complementary and Integrative Health. Hypnosis.

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