Porque algumas estratégias para a ansiedade ajudam apenas durante pouco tempo

Respirar, distrair-te ou tentar pensar de forma diferente pode ajudar, mas nem sempre responde a tudo o que mantém a ansiedade.

ANSIEDADEHIPNOTERAPIA CLÍNICA

Miquelina Pires

7/2/20268 min read

A thoughtful woman with brown hair sits in a bright kitchen with a coffee mug.
A thoughtful woman with brown hair sits in a bright kitchen with a coffee mug.

Há uma lista de coisas que provavelmente já tentaste.

Respirar fundo. Distrair-te com uma série. Ocupar a cabeça com trabalho. Evitar determinadas situações. Repetir a ti própria que não existe razão para te sentires assim.

Por vezes, alguma destas estratégias ajuda. A ansiedade diminui durante alguns minutos ou algumas horas.

Depois regressa.

Isto não significa que não te esforçaste o suficiente. Também não significa que todas as estratégias que experimentaste são inúteis.

Significa que a ansiedade pode ter várias causas e que uma medida isolada nem sempre consegue responder a tudo o que está a acontecer.

O que é a ansiedade

A ansiedade faz parte da experiência humana.

Pode surgir antes de uma decisão importante, de uma apresentação, de um exame médico ou perante uma situação que não consegues controlar. Nesses momentos, ajuda-te a prestar atenção e a preparar uma resposta.

A dificuldade começa quando a preocupação ou o medo se tornam persistentes, intensos e difíceis de controlar, mesmo quando não existe um perigo imediato.

Podes sentir o coração acelerado, tensão muscular, desconforto no estômago, inquietação, transpiração ou dificuldade em respirar tranquilamente.

A mente pode antecipar tudo o que poderá correr mal. Revês conversas, imaginas diferentes cenários e tentas encontrar uma solução antes de o problema existir.

À noite, o corpo está cansado, mas a atenção continua ligada.

Estas respostas podem surgir rapidamente e tornar-se habituais com a repetição. São influenciadas por vários fatores, como o sono, o estado de saúde, a medicação, as experiências anteriores, as exigências atuais e as condições em que vives.

Não é correto afirmar que a ansiedade resulta sempre de uma resposta guardada no subconsciente. Também não é possível concluir, apenas pelos sintomas, que não existe qualquer ameaça ou causa física.

Quando a ansiedade persiste ou interfere com a tua vida, é importante procurar uma avaliação adequada.

Porque a lógica nem sempre é suficiente

Talvez saibas racionalmente que uma situação é segura e, mesmo assim, sintas ansiedade.

Isso não significa que existem duas partes da mente em conflito nem que uma delas está fora do teu alcance.

Uma resposta física pode começar antes de conseguires analisar conscientemente tudo o que está a acontecer. O coração acelera, os músculos ficam tensos e só depois tentas perceber porquê.

Além disso, saber que um receio é pouco provável não faz com que a sensação desapareça imediatamente.

As respostas emocionais são influenciadas por associações, experiências anteriores, expectativas e pelo significado que atribuis ao que está a acontecer.

Compreender racionalmente porque reages de determinada forma pode ser importante, mas não significa que consigas modificar essa resposta de imediato.

Respirar fundo pode ajudar, mas não resolve tudo

A respiração lenta pode ajudar a reduzir temporariamente algumas manifestações físicas da ansiedade.

Quando é feita de forma confortável, sem forçar inspirações muito profundas, pode contribuir para diminuir a tensão e criar um momento de pausa.

Contudo, não elimina necessariamente a causa da ansiedade.

Se continuas exposta a uma situação difícil, se dormes mal, se tens excesso de responsabilidades ou se existe uma condição de saúde por avaliar, respirar mais lentamente pode trazer alívio sem resolver o problema completo.

Também há pessoas que ficam mais atentas às sensações físicas quando tentam controlar a respiração e acabam por sentir maior desconforto.

Não existe uma técnica que funcione da mesma forma para todas as pessoas.

Porque tentar não pensar pode ter o efeito contrário

Quando tentas impedir um pensamento de aparecer, precisas de verificar constantemente se estás ou não a pensar nele.

Esse esforço pode fazer com que o pensamento permaneça mais presente.

É como dizeres a ti própria: “Não posso pensar nisto.” Para confirmares que estás a cumprir essa ordem, a tua atenção regressa precisamente ao assunto que querias evitar.

Isto não significa que devas analisar cada pensamento ou acreditar em tudo o que passa pela tua mente.

Significa apenas que lutar continuamente contra um pensamento pode aumentar o cansaço e a atenção que lhe atribuis.

Por vezes, é mais útil reconhecer que o pensamento apareceu, sem o transformar numa certeza ou numa instrução que tens de seguir.

Distrair-te também pode ser útil

Ver uma série, trabalhar, conversar ou fazer uma atividade de que gostas pode interromper momentaneamente uma sequência de preocupação.

A distração não é necessariamente uma forma errada de lidar com a ansiedade.

Pode dar-te espaço para descansares e recuperar alguma perspectiva.

A dificuldade surge quando se torna a única forma de conseguires atravessar o dia. Se precisas de estar sempre ocupada para não sentires ansiedade, qualquer momento de silêncio pode começar a parecer ameaçador.

Nesse caso, poderá ser necessário compreender melhor aquilo que estás a evitar, as situações em que a ansiedade aparece e o impacto que está a ter na tua vida.

Mudanças no quotidiano podem fazer diferença

Dormir melhor, reduzir cafeína, fazer atividade física adequada, diminuir a utilização do telemóvel e criar momentos de descanso podem ajudar algumas pessoas.

Estas medidas não atuam apenas à superfície. Podem influenciar a forma como te sentes e melhorar as condições necessárias para recuperares.

Mas não substituem uma avaliação quando os sintomas são persistentes ou intensos.

A ansiedade pode estar associada a dificuldades emocionais, mas também pode ser agravada por alterações da tiroide, anemia, menopausa, dor, alguns medicamentos, consumo de estimulantes, problemas respiratórios ou outras condições de saúde.

Por isso, não deves assumir que tudo vem da mente ou que a única solução consiste em trabalhar o subconsciente.

Onde pode entrar a hipnoterapia clínica

A hipnoterapia clínica utiliza atenção focada, imaginação orientada e sugestões relacionadas com objetivos definidos antecipadamente.

Durante a sessão, continuas consciente. Podes ouvir, falar, mexer-te, abrir os olhos ou interromper o exercício em qualquer momento.

Não estás a dormir e não perdes o controlo sobre aquilo que fazes ou dizes.

Na minha prática, a hipnoterapia pode ser utilizada para trabalhar objetivos como a antecipação constante, a dificuldade em parar, algumas respostas habituais perante situações específicas e a forma como te relacionas com determinadas sensações.

Não se trata de apagar pensamentos, eliminar emoções ou convencer-te de que tudo está bem.

O trabalho procura criar um contexto de atenção concentrada no qual possas envolver-te com imagens, sensações e sugestões orientadas para aquilo que pretendes trabalhar.

A investigação sobre hipnose e ansiedade não apresenta os mesmos resultados em todas as situações. Existem resultados encorajadores sobretudo na ansiedade associada a alguns procedimentos médicos e dentários, mas a evidência global ainda não permite afirmar que a hipnoterapia trata as perturbações de ansiedade de forma comprovada.

Por isso, deve ser considerada um recurso complementar e não um substituto dos cuidados médicos, psicológicos ou psiquiátricos necessários.

O que o Manual MSD permite realmente afirmar

O Manual MSD apresenta a hipnose entre algumas práticas complementares e descreve utilizações possíveis em áreas específicas.

Isso não significa que reconheça a hipnoterapia como intervenção comprovadamente eficaz para todas as fobias, perturbações de ansiedade, problemas de sono e situações de dor persistente.

Uma referência clínica pode mencionar uma abordagem sem concluir que existe evidência suficiente para a recomendar em todas as situações.

Por esse motivo, não é rigoroso afirmar que a hipnoterapia chega a níveis que outras abordagens não alcançam ou que a sua eficácia para a ansiedade está clinicamente confirmada pelo Manual MSD.

A informação científica deve ser apresentada de acordo com o tipo de ansiedade estudado, a qualidade da investigação e as limitações conhecidas.

O que mostrou o estudo publicado em 2026

Um estudo publicado em fevereiro de 2026 na revista Scientific Reports avaliou 49 estudantes finalistas de Medicina.

Os participantes foram convidados a recordar uma experiência negativa relacionada com a formação médica. Um grupo realizou uma sessão personalizada de hipnose e outro participou num exercício centrado na atenção à respiração.

Os investigadores avaliaram o stress e a ansiedade sentidos, o desempenho numa tarefa de função executiva e alguns indicadores físicos.

Depois da intervenção, o grupo que realizou hipnose apresentou uma melhoria superior na tarefa de função executiva e uma redução do stress e da ansiedade relatados. Também foram observadas diferenças em alguns indicadores físicos relacionados com a resposta à experiência recordada.

Os resultados são interessantes, mas precisam de ser interpretados com prudência.

O estudo teve uma amostra pequena, realizou-se apenas uma sessão e foi utilizada uma situação experimental específica.

Não foram estudadas pessoas com uma perturbação de ansiedade diagnosticada. A investigação também não demonstrou que a hipnose acede a uma zona da mente que a consciência não consegue alcançar.

Os resultados não permitem afirmar que a hipnoterapia trata a ansiedade crónica nem que produz mudanças duradouras depois de uma sessão.

Este estudo contribui para o conhecimento sobre hipnose e resposta ao stress, mas não deve ser utilizado para prometer efeitos que não foram investigados.

A hipnoterapia não exige que deixes de fazer esforço

A hipnoterapia não depende de lutares contra aquilo que sentes.

No entanto, também não é um processo completamente passivo.

É importante que consigas explicar o que pretendes trabalhar, participar nas sessões e observar o que acontece entre cada encontro.

Algumas pessoas sentem mudanças rapidamente. Outras precisam de mais tempo. Há também situações em que a hipnoterapia não é a opção mais adequada.

Nenhum acompanhamento responsável deve garantir antecipadamente que a ansiedade desaparecerá ou que uma determinada resposta deixará de surgir.

O objetivo é trabalhar de forma progressiva, respeitando a tua situação, os teus limites e os restantes cuidados de que possas precisar.

Para quem pode fazer sentido

A hipnoterapia clínica pode fazer sentido quando já identificaste situações em que a ansiedade aparece e pretendes trabalhar objetivos específicos com um recurso complementar.

Pode também ser considerada quando sentes dificuldade em parar, antecipas continuamente acontecimentos ou percebes que determinadas reações se tornaram habituais.

Isso não significa que tenhas de experimentar tudo antes de procurar este acompanhamento.

Também não significa que quem ainda não conseguiu melhorar não se esforçou o suficiente ou esteve a trabalhar no lugar errado.

Cada pessoa precisa de uma resposta ajustada à origem, à intensidade e ao impacto dos sintomas.

Quando deves procurar avaliação

Procura um profissional de saúde quando a ansiedade persiste durante várias semanas, está a agravar-se ou começa a interferir com o trabalho, o sono, as relações e as tarefas habituais.

Palpitações, falta de ar, dor no peito, desmaios, perda de peso sem explicação, alterações marcadas do sono ou outros sintomas físicos também merecem avaliação.

Se já estás a ser acompanhada ou a tomar medicação, não interrompas nem alteres o tratamento sem falar com o profissional responsável.

A hipnoterapia não substitui acompanhamento médico, psicológico ou psiquiátrico quando estes são necessários.

Caso sintas que não estás segura, que podes magoar-te ou que já não consegues assegurar os cuidados essenciais, contacta o 112, dirige-te a um serviço de urgência ou pede a uma pessoa de confiança que permaneça contigo.

Não precisas de continuar a lutar sozinha

Talvez já tenhas tentado acalmar-te de muitas formas.

O facto de a ansiedade regressar não significa que falhaste.

Pode significar que precisas de compreender melhor o que está a acontecer, avaliar outras causas ou encontrar um acompanhamento mais ajustado à tua situação.

A conversa inicial gratuita é sempre online e dura aproximadamente 20 minutos. Serve para explicares brevemente o que estás a viver, esclareceres dúvidas e percebermos se a hipnoterapia clínica poderá fazer sentido como recurso complementar.

Não é uma consulta de diagnóstico, não é uma sessão de hipnose e não implica qualquer compromisso para avançar.

Podes ver a disponibilidade para uma conversa inicial gratuita.

Caso ainda não te sintas preparada para falar, podes ouvir o áudio gratuito.

Miquelina Pires
Enfermeira desde 1993 e hipnoterapeuta clínica desde 2023
Consultas presenciais em Tomar e Abrantes e atendimento online

Fontes consultadas

Organização Mundial da Saúde. Anxiety disorders.

National Center for Complementary and Integrative Health. Anxiety and Complementary Health Approaches.

National Center for Complementary and Integrative Health. Hypnosis.

Queirolo, L., Boscolo, A., Cracco, T. e colaboradores. Hypnosis reshapes multilevel stress response and enhances executive performance in stressed medical students. Scientific Reports, 2026.

Queirolo, L., Boscolo, A., Cracco, T. e colaboradores. Registo do estudo na PubMed.

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