Não, não vais adormecer na cadeira. O que acontece mesmo numa sessão de hipnoterapia.
A hipnoterapia não é pensamento positivo. Não é magia. É um processo clínico e vou explicar-te exatamente como funciona.
HIPNOTERAPIAANSIEDADEDESMISTIFICAÇÃO
Miquelina Pires
4/8/20267 min read
Há uma pergunta que quase todas as pessoas me fazem antes da primeira sessão. Algumas dizem-na em voz alta. Noutras, consigo percebê-la no olhar:
“Mas eu vou ficar inconsciente?”
Não. Durante uma sessão de hipnoterapia não adormeces, não perdes o controlo e não és obrigada a revelar nada que não queiras partilhar.
A imagem de uma pessoa completamente dominada pelo hipnotizador pertence sobretudo ao entretenimento. A hipnose utilizada num contexto de acompanhamento é muito diferente daquilo que costuma aparecer no cinema ou em espetáculos.
Então, o que acontece realmente durante uma sessão?
Primeiro, o que é o estado hipnótico
A hipnose é habitualmente descrita como um estado de atenção mais concentrada, menor atenção ao que está à volta e maior capacidade de responder a sugestões.
Isto não significa que fiques desligada do ambiente ou sem consciência do que está a acontecer. Continuas a ouvir, a compreender e a tomar decisões.
Uma revisão científica publicada em 2024 analisou as principais teorias sobre o funcionamento das sugestões hipnóticas e concluiu que ainda não existe uma explicação única e consensual para todos os fenómenos associados à hipnose. O que existe é um conjunto de modelos que destacam processos como a atenção, as expectativas, a imaginação e a resposta às sugestões. (PubMed)
Algumas pessoas descrevem a experiência como um relaxamento profundo. Outras sentem sobretudo maior concentração, como se a atenção ficasse menos dispersa.
Não precisas de sentir algo extraordinário para que a sessão esteja a decorrer adequadamente.
Também não existe uma sensação única que prove que estás “mesmo hipnotizada”. Cada pessoa vive a experiência de uma forma diferente.
Já estiveste num estado de grande concentração
É comum comparar a hipnose com momentos em que estás tão envolvida num livro, num filme ou numa tarefa que deixas de prestar atenção ao que acontece à tua volta.
Esta comparação ajuda a compreender a concentração envolvida, mas não significa que esses momentos sejam exatamente iguais a uma sessão de hipnose.
Durante a sessão existe uma orientação intencional. A atenção é dirigida para imagens, sensações, palavras ou experiências relacionadas com o objetivo definido previamente.
Não é magia nem inconsciência.
É uma experiência baseada na atenção, na imaginação e na forma como respondes às sugestões que te são apresentadas.
O que sabemos sobre o cérebro durante a hipnose
Os estudos de neuroimagem mostram que a hipnose pode estar associada a alterações na atividade de redes cerebrais envolvidas na atenção, na imaginação, na percepção e na monitorização da experiência.
No entanto, não é rigoroso afirmar que o cérebro entra sempre num registo específico, que determinadas ondas cerebrais substituem as restantes ou que o córtex pré-frontal simplesmente “desliga”.
Uma revisão sistemática sobre os correlatos cerebrais da hipnose concluiu que existem alterações observáveis, mas encontrou poucos padrões suficientemente consistentes entre os diferentes estudos. Os autores destacaram a participação de redes relacionadas com o controlo da atenção, a percepção de relevância e a atividade autorreferencial.
Outra revisão sistemática encontrou alterações funcionais na atividade cerebral durante a hipnose, mas chamou a atenção para a grande heterogeneidade dos estudos realizados.
Isto significa que a hipnose é estudada cientificamente e está associada a alterações mensuráveis, mas ainda não existe uma explicação simples que permita dizer: “é exatamente isto que acontece em todas as pessoas”.
Vais continuar consciente e com controlo
Durante a sessão, continuas a ouvir a minha voz e a perceber o que está a acontecer.
Podes falar, mexer-te, ajustar a posição, abrir os olhos ou interromper o exercício. Não existe um momento em que eu assuma o controlo sobre ti.
A minha função é orientar o processo. A tua participação continua a ser essencial.
Uma sugestão hipnótica não é uma ordem irresistível. É uma proposta apresentada de forma intencional, que pode ser mais ou menos adequada à pessoa, ao objetivo e ao momento.
As pessoas também diferem na forma como respondem à hipnose e às sugestões. Algumas envolvem-se rapidamente na experiência. Outras precisam de mais tempo ou respondem melhor a determinados tipos de orientação. A investigação confirma que existe variabilidade individual na capacidade de resposta hipnótica. (PubMed)
Por isso, não espero que todas as pessoas sintam o mesmo, vejam imagens nítidas ou atinjam um nível específico de relaxamento.
A sessão é adaptada à forma como tu respondes.
O que acontece numa sessão, concretamente
A sessão começa com uma conversa.
Quero perceber o que te trouxe, o que estás a sentir, como essa dificuldade se manifesta no teu dia a dia e o que pretendes trabalhar.
Também é importante conhecer informações relevantes sobre a tua saúde, a medicação que tomas e os acompanhamentos que já tens. Esta recolha não serve para fazer um diagnóstico médico ou psicológico. Serve para avaliar se a hipnoterapia é adequada e para conduzir o acompanhamento com maior segurança.
Depois explico-te o que vamos fazer e esclareço as dúvidas que ainda existirem.
Quando começamos a parte hipnótica, guio a tua atenção através da voz, do ritmo e de instruções simples. Posso convidar-te a observar a respiração, a imaginar um lugar, a dirigir a atenção para diferentes partes do corpo ou a acompanhar determinadas sensações.
Não utilizo pêndulos, gestos teatrais ou surpresas.
O processo é calmo e explicado previamente.
À medida que a atenção se concentra, utilizo sugestões relacionadas com o objetivo da sessão. Essas sugestões são preparadas de acordo com aquilo que falámos e com a forma como estás a responder naquele momento.
Não procuro retirar-te informação, controlar-te ou levar-te a dizer algo contra a tua vontade.
E se eu não conseguir relaxar?
Não tens de ser especialmente boa a relaxar para participar numa sessão.
Aliás, muitas pessoas procuram hipnoterapia precisamente porque sentem dificuldade em parar, concentrar-se ou descansar.
Também não tens de esvaziar a mente. Os pensamentos podem aparecer durante a sessão e isso não significa que alguma coisa esteja a correr mal.
Podes ouvir sons exteriores, reparar na posição do corpo ou pensar brevemente noutra coisa. A atenção não precisa de permanecer completamente imóvel.
Quando te distrais, podes simplesmente voltar a acompanhar a minha voz.
A hipnose não depende de uma prestação perfeita. Não existe um teste que tenhas de passar.
Vais lembrar-te da sessão?
Na maioria dos casos, a pessoa recorda a sessão ou grande parte dela.
Pode acontecer que alguns momentos pareçam menos nítidos, da mesma forma que nem sempre recordamos todos os detalhes de uma conversa longa ou de um exercício de relaxamento.
Mas não parto do princípio de que vais esquecer o que aconteceu.
A amnésia não é necessária para que exista hipnose e não é um objetivo habitual do meu acompanhamento.
Também não utilizo a hipnose para procurar memórias ocultas ou para confirmar que determinado acontecimento ocorreu. As recordações podem ser influenciadas por perguntas, expectativas e sugestões, pelo que devem ser abordadas com prudência.
Como te podes sentir no final
Algumas pessoas terminam a sessão com uma sensação de tranquilidade ou de descanso. Outras sentem-se mais despertas, emocionadas ou pensativas.
Não existe uma reação obrigatória.
Chorar não significa necessariamente que ocorreu uma grande libertação. Rir também não prova que uma dificuldade ficou resolvida. São respostas humanas que podem surgir durante uma experiência emocional, mas precisam de ser compreendidas dentro do contexto de cada pessoa.
No final, há sempre tempo para regressares plenamente à atenção habitual, perceberes como te sentes e falares sobre a experiência.
Não sais da sessão “presa” num estado hipnótico.
Porque não é o mesmo que pensar positivo
A hipnoterapia não consiste em repetir frases positivas até acreditares nelas.
As sugestões precisam de estar relacionadas com um objetivo realista, fazer sentido para a pessoa e ser integradas num processo coerente.
Dizer a alguém que está calma quando essa pessoa sente medo intenso pode não produzir qualquer mudança. Da mesma forma, repetir que tudo vai correr bem não elimina automaticamente hábitos, antecipações ou respostas que se repetem há muito tempo.
Na hipnoterapia, podemos utilizar a atenção e a imaginação para experimentar formas diferentes de responder, reforçar recursos e trabalhar associações que se tornaram habituais.
Isso não significa que a hipnose “recalibra” automaticamente o organismo, nem que chega a um lugar inacessível a todas as outras abordagens.
Significa que utiliza um conjunto específico de recursos que pode ser útil para alguns objetivos e para algumas pessoas.
O que a hipnoterapia pode e não pode fazer
A hipnose tem sido estudada em diferentes áreas, incluindo determinadas formas de dor, ansiedade associada a procedimentos médicos, síndrome do intestino irritável, sintomas da menopausa e cessação tabágica.
A qualidade da evidência não é igual em todas as situações. Em algumas áreas existem resultados promissores. Noutras, os estudos são insuficientes, apresentam limitações ou produzem resultados contraditórios. O National Center for Complementary and Integrative Health apresenta uma síntese atualizada da investigação disponível.
Por isso, não apresento a hipnoterapia como solução universal.
Também não substitui avaliação médica, cuidados de enfermagem, medicação prescrita ou outros acompanhamentos necessários.
O objetivo é perceber se esta ferramenta pode fazer sentido para aquilo que estás a viver e utilizá-la dentro de limites claros, com informação e participação da tua parte.
Ainda tens dúvidas?
Ter dúvidas antes da primeira sessão é natural.
Não precisas de acreditar cegamente na hipnose. Precisas apenas de receber informação clara, perceber como trabalho e decidir se te sentes confortável para avançar.
A conversa inicial gratuita existe precisamente para isso.
É realizada online, dura aproximadamente 20 minutos e permite-te explicar brevemente o que estás a viver, colocar perguntas e perceber como funciona o acompanhamento.
Não existe compromisso nem pressão para marcares uma sessão.
Podes ver a disponibilidade para uma conversa inicial gratuita.
Podes também conhecer o Protocolo Recomeço, um percurso estruturado de cinco sessões para pessoas que vivem esgotamento, sobrecarga e dificuldade em recuperar.
Miquelina Pires
Enfermeira desde 1993 e hipnoterapeuta clínica desde 2023
Consultas presenciais em Tomar e Abrantes e atendimento online
Fontes consultadas
National Center for Complementary and Integrative Health. Hypnosis.


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