Porque o intervalo entre sessões faz parte do processo
O intervalo entre sessões permite observar respostas, reconhecer padrões e dar continuidade ao acompanhamento. Mas deixar passar demasiado tempo também pode quebrar o processo.
HIPNOTERAPIA
Miquelina Pires
9/17/20265 min read


Porque o intervalo entre sessões faz parte do processo
Quando alguém inicia um acompanhamento, é natural concentrar toda a atenção no que acontece durante cada sessão.
Mas o processo não fica suspenso quando a sessão termina.
Nos dias seguintes, a pessoa regressa à sua rotina, encontra situações que já conhece, observa as suas reações e começa a reconhecer padrões que, até aí, podiam acontecer de forma automática.
O intervalo entre sessões serve também para isso.
Não é um tempo vazio à espera da sessão seguinte. É o período em que aquilo que foi trabalhado encontra a vida real.
Uma sessão não existe isoladamente
Pensa comigo.
Durante uma sessão, podes compreender uma determinada reação, olhar para uma experiência de outra forma ou reconhecer a origem de um comportamento que repetes há muitos anos.
Mas compreender alguma coisa dentro da sessão e perceber como essa mudança se manifesta no quotidiano não são exatamente a mesma coisa.
É quando voltas à tua vida que encontras os pedidos aos quais costumas responder sem pensar, as responsabilidades que assumes automaticamente e as situações em que continuas a colocar-te em último lugar.
É também aí que podes começar a observar:
“Estou novamente a fazer isto.”
“Esta reação já não me passou despercebida.”
“Desta vez consegui parar antes de responder.”
Estas observações são importantes porque trazem informação para a sessão seguinte. Permitem perceber o que mudou, o que continua a repetir-se e o que precisa de ser trabalhado com maior atenção.
O que acontece entre sessões também conta
Em algumas abordagens psicológicas, aquilo que a pessoa pratica e observa entre sessões faz parte explícita do acompanhamento. O NHS, por exemplo, explica que, na terapia cognitivo-comportamental, a pessoa é convidada a praticar entre sessões aquilo que aprendeu durante o acompanhamento.
A investigação realizada nesta área também encontrou uma associação entre o trabalho feito entre sessões e os resultados terapêuticos. Isto não significa que esses resultados possam ser automaticamente aplicados à hipnoterapia. São abordagens diferentes. Mostram, no entanto, uma ideia importante: o acompanhamento não depende apenas do tempo passado com o profissional. A participação da pessoa e o que acontece no seu quotidiano também têm peso.
Na hipnoterapia, não procuro que a pessoa passe os dias a analisar tudo aquilo que sente ou a tentar controlar cada reação.
Procuro que repare.
Que reconheça aquilo que surge.
Que consiga trazer para a sessão seguinte informação concreta sobre o que aconteceu na sua vida, em vez de avaliar o processo apenas pela sensação que teve ao terminar a sessão anterior.
Então, por que não fazer as sessões todas seguidas?
Porque mais sessões em menos tempo não significa, por si só, um processo mais adequado.
O ritmo precisa de respeitar o objetivo do acompanhamento, a abordagem utilizada, a situação da pessoa e a forma como ela está a responder.
A investigação sobre a frequência das sessões não aponta para um intervalo único que seja adequado a todas as pessoas e a todas as abordagens. Um ensaio clínico com 200 adultos com depressão comparou sessões semanais e duas sessões por semana de terapia cognitivo-comportamental e terapia interpessoal. Nesse contexto específico, as sessões duas vezes por semana estiveram associadas a uma resposta mais rápida, menos desistências e maior redução dos sintomas durante a fase estudada.
Este resultado não estabelece a frequência correta para a hipnoterapia. Mostra, sobretudo, que a organização das sessões não é um detalhe administrativo. A frequência pode influenciar a continuidade e os resultados, dependendo da intervenção e do problema que está a ser acompanhado.
As próprias orientações do NICE apresentam frequências diferentes consoante o tipo de intervenção e a situação clínica. Portanto, não existe uma regra séria que permita dizer que todas as pessoas devem fazer sessões com o mesmo intervalo.
Mas espaçar demasiado também pode dificultar
Se as sessões forem demasiado afastadas, pode tornar-se mais difícil manter a continuidade do trabalho.
Entretanto, a rotina ocupa novamente todo o espaço. As situações acumulam-se. Os padrões automáticos voltam a assumir o controlo e a sessão seguinte pode começar quase como se fosse necessário recuperar o fio ao processo.
Isto não significa que tudo o que foi trabalhado se perdeu.
Significa que um acompanhamento estruturado precisa de ritmo. Precisa de tempo suficiente para observar o que acontece entre sessões, mas também de proximidade suficiente para que cada sessão possa continuar o trabalho da anterior.
No Protocolo Recomeço, o ritmo ideal é semanal e procuro que o intervalo não ultrapasse duas semanas.
Não apresento esta organização como uma regra universal da hipnoterapia. É a forma como estruturo este protocolo para existir continuidade, sem retirar à pessoa o tempo necessário para observar como está a responder no seu quotidiano.
O intervalo não é uma prova
Há outro ponto importante.
O tempo entre sessões não serve para testar se consegues fazer tudo sozinha.
Não tens de chegar à sessão seguinte com uma mudança extraordinária para provar que o acompanhamento está a resultar. Também não tens de vigiar permanentemente os teus pensamentos, emoções ou comportamentos.
O objetivo é observar com honestidade.
O que sentiste?
O que se repetiu?
O que ficou mais claro?
Houve alguma situação em que reagiste de forma diferente?
Surgiu alguma dificuldade que antes não tinhas identificado?
Esta informação ajuda a orientar o acompanhamento. E permite que a sessão seguinte parta daquilo que realmente aconteceu, em vez de partir apenas daquilo que, em teoria, deveria ter acontecido.
A regularidade não substitui a individualização
A regularidade ajuda a manter um fio condutor, mas não deve transformar-se numa fórmula rígida.
Uma pessoa pode precisar de ajustar uma data. Pode surgir uma situação de saúde, uma dificuldade familiar ou um acontecimento que altere temporariamente o ritmo previsto.
Isso não significa que o processo falhou.
Significa que o acompanhamento precisa de considerar a pessoa real, a sua situação e os limites que existem naquele momento.
O importante é distinguir um ajuste necessário de um afastamento sucessivo que começa a interromper a continuidade do trabalho.
Por isso, quando organizo as sessões, o intervalo não é escolhido apenas em função da agenda. Faz parte da estrutura do acompanhamento.
Porque aquilo que acontece na sessão é importante.
Mas aquilo que consegues observar quando regressas à tua vida também é.
Se estás a considerar iniciar um acompanhamento e queres perceber se o Protocolo Recomeço é adequado àquilo que estás a viver, podes marcar uma conversa inicial gratuita. Essa conversa serve para compreender a tua situação, explicar como trabalho e esclarecer as tuas dúvidas. Não te compromete a iniciar o protocolo.
Sobre a autora: Miquelina Pires é hipnoterapeuta clínica e enfermeira há mais de 30 anos. Atende em Tomar e Abrantes, e online para todo o país.
Fontes consultadas
Bruijniks, S. J. E. e colaboradores (2020). The effects of once- versus twice-weekly sessions on psychotherapy outcomes in depressed patients. British Journal of Psychiatry, 216(4), 222–230. Ensaio clínico aleatorizado com 200 adultos, limitado à terapia cognitivo-comportamental e à terapia interpessoal no tratamento da depressão.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32029012/
National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. As recomendações apresentam estruturas e frequências diferentes consoante a intervenção e a situação clínica.
https://www.nice.org.uk/guidance/ng222/chapter/recommendations
NHS. Talking therapies. Informação sobre diferentes terapias e sobre a prática, entre sessões, daquilo que é trabalhado na terapia cognitivo-comportamental.
https://www.nhs.uk/tests-and-treatments/talking-therapies/
Kazantzis, N., Deane, F. P. e Ronan, K. R. (2000). Homework Assignments in Cognitive and Behavioral Therapy: A Meta-Analysis. Clinical Psychology: Science and Practice, 7(2), 189–202. Revisão centrada em intervenções cognitivas e comportamentais, não especificamente em hipnoterapia.
https://doi.org/10.1093/clipsy.7.2.189
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